No último mês de março, enquanto minha sócia Alessandra participava de eventos voltados à mediação e arbitragem, conforme compartilhado em nosso último artigo, eu estive em Austin, nos Estados Unidos, para vivenciar o SXSW 2026.
Para quem já ouviu falar do SXSW, é natural surgir a dúvida: existe conteúdo diretamente relacionado à arbitragem, mediação ou perícia contábil?
A resposta mais imediata é não.
Ainda assim, apesar de correta, essa conclusão é limitada.
O SXSW não é um evento jurídico. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão relevante para quem atua no Direito, especialmente no Direito Societário e na atuação pericial.
Trata-se de um festival que reúne temas como tecnologia, inovação, economia criativa, comportamento, mídia, educação e negócios. Um ambiente diverso, dinâmico e, acima de tudo, antecipatório. Muitas das transformações que depois impactam o mercado global passam por ali primeiro, ainda como tendência, provocação ou até mesmo como algo em fase de construção.
E aqui está o ponto central da experiência.
Toda transformação econômica gera novos modelos de negócio. E esses novos modelos, inevitavelmente, trazem desafios jurídicos.
Ao longo do evento, ficou claro que estamos diante de uma mudança relevante na forma como os negócios vêm se organizando.
Empresas estão deixando de ser estruturas rígidas para se tornarem ecossistemas mais fluídos. Modelos baseados em comunidade, creators, plataformas e redes distribuídas estão ganhando cada vez mais espaço. A inteligência artificial aparece em praticamente todos os contextos, não como protagonista isolada, mas como uma camada integrada ao funcionamento dos negócios.
Esse movimento tem impacto direto no Direito Societário.
Temas como participação societária, distribuição de resultados, governança, responsabilidade e propriedade de ativos intangíveis passam a exigir um olhar mais sofisticado. Em muitos casos, talvez ainda estejamos utilizando estruturas jurídicas tradicionais para lidar com realidades que já se transformaram.
Não se trata apenas de constituir uma empresa ou redigir um contrato social. Trata-se de estruturar relações econômicas que são mais dinâmicas, mais complexas e, muitas vezes, inéditas.
Outro ponto interessante que apareceu em diferentes conversas e conteúdo foi um certo paradoxo. Ao mesmo tempo em que todos falam de inovação, há uma sensação crescente de que as coisas estão ficando parecidas.
Marcas, produtos, interfaces e até discursos começam a convergir. A diferenciação, que deveria ser consequência natural da inovação, nem sempre acontece na prática.
Isso também traz uma reflexão importante para o universo jurídico: até que ponto as estruturas societárias, contratos e modelos de governança que utilizamos hoje refletem, de fato, a singularidade de cada negócio? Ou estamos, muitas vezes, aplicando modelos padronizados para realidades que já não são mais padrão?
Surge também uma provocação adicional: em que medida esse movimento pode ampliar litígios relacionados à propriedade intelectual, como disputas por originalidade, autoria e uso indevido de conteúdo.
Mais do que respostas, o SXSW provoca perguntas.
E talvez esse seja o maior valor da experiência.
Perguntas que geram desconforto. E esse desconforto é necessário para evolução. Ele nos obriga a revisar premissas, ampliar repertório e repensar a forma como atuamos.
No nosso caso, isso reforça algo que já faz parte da atuação da Ribas Secco. O compromisso com rigor técnico, ética e qualidade não muda. O que muda é a forma como aplicamos nosso conhecimento diante de novas realidades.
Participar de um ambiente como o SXSW não significa seguir tendências de forma automática. Significa observar, interpretar, conectar pontos e se preparar para o que, mais cedo ou mais tarde, chegará ao campo jurídico e pericial.
Se há um insight a compartilhar, é que o Direito, especialmente o Societário, tende a assumir um papel cada vez mais estratégico na construção, estruturação e sustentação dos negócios.
E quem conseguir enxergar esse movimento com antecedência estará mais bem posicionado para gerar valor.
Se tiver interesse em aprofundar algum desses pontos ou quiser saber mais sobre a experiência, fique à vontade para comentar. Será um prazer continuar essa conversa.
Luis F.P. Freitas
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