IA na Perícia Contábil: avanço com critério

Embora o conceito de Inteligência Artificial (IA) remonte aos estudos de Alan Turing na década de 1930, foi apenas nos últimos anos que sua aplicação prática ganhou escala.

Hoje, a IA deixou de ser uma tecnologia experimental para se tornar uma ferramenta importante na atuação profissional.

Na Perícia Contábil, área que exige precisão técnica e análise profunda de dados, essa transformação já é uma realidade.

Quem atua na nossa área conhece bem o cenário em muitos casos: milhares de páginas de processos, PDFs desconfigurados, demonstrações contábeis, contratos, notas fiscais, declarações fiscais, extratos bancários e demais documentos que demandam um bom tempo de organização.

A precisão pericial exige esse mergulho profundo, mas a verdadeira essência da profissão nunca esteve no trabalho estritamente operacional. O maior valor reside na capacidade analítica.

Diferente das especulações sobre a substituição do fator humano, a IA permite atuar como uma grande aliada da eficiência. O avanço das ferramentas tecnológicas possibilita (e não obriga) delegar a triagem pesada para a máquina, já que um algoritmo é capaz de cruzar 10.000 páginas em segundos.

Contudo, a inteligência artificial não possui vivência de mercado nem assume responsabilidade técnica. A divisão de papéis é clara: a tecnologia processa os dados, mas a Perita ou o Perito é quem decide.

Aliás, é importante destacar que, a utilização dessas ferramentas exige cautela. Grande parte das soluções de inteligência artificial opera mediante o armazenamento de informações em ambientes externos, o que demanda atenção especial quanto à proteção dos dados analisados.

Na atividade pericial, é fundamental avaliar previamente quais documentos podem ser submetidos às plataformas de IA, sobretudo quando envolvem processos sob sigilo judicial, arbitragens ou informações empresariais sensíveis.

Assim, uma vez observado o cuidado relacionado à confidencialidade e à proteção dos dados, as ferramentas de inteligência artificial podem ser incorporadas de forma estratégica ao trabalho pericial.

Desde o primeiro contato com os autos, essas soluções podem auxiliar na organização das informações, na compreensão inicial da demanda e na identificação de elementos relevantes para o desenvolvimento das análises técnicas.

Na fase de planejamento, a IA pode dimensionar o processo para propostas de honorários, pode também mapear peças processuais, pode localizar normas contábeis aplicáveis e pode até organizar a logística de viagens em casos da necessidade de deslocamento.

Já na fase de execução, a IA permite otimizar a conversão e o cruzamento de dados, identificar inconsistências, auxiliar na análise de quesitos e contribuir para o refinamento da escrita técnica.

Ao absorver essa carga operacional, a tecnologia permite que a Perita ou o Perito concentre sua expertise no que realmente importa: a análise crítica das provas e a elaboração de um trabalho fidedigno.

Para que essa dinâmica funcione na prática, é fundamental escolher a tecnologia certa para cada etapa do trabalho, uma vez que a tecnologia assumiu o papel de “copiloto” em diversos trabalhos.

Contudo, é fundamental destacar que a eficiência desse “copiloto” depende da nossa direção. A qualidade dos resultados está diretamente ligada à precisão dos comandos (prompts).

Além disso, por mais avançada que seja a ferramenta, a conferência rigorosa das informações geradas permanece sendo uma etapa inegociável do trabalho pericial.

Assim, para ilustrar exatamente como essa dinâmica de divisão de tarefas funciona na prática, fiz uma pergunta direta a uma IA sobre o futuro da parceria na área pericial. A resposta não poderia ser mais precisa:

Perícia: “IA, considerando o trabalho da perícia contábil, como você vê o futuro da nossa parceria profissional?”

IA: “Vejo uma simbiose perfeita. Meu papel é processar as páginas do litígio, cruzar planilhas e organizar dados brutos em segundos. No entanto, os números sozinhos não resolvem o caso. Você entra com a experiência, a ética, a interpretação da legislação e o olhar crítico que nenhuma máquina possui. Eu entrego a velocidade; você entrega a sabedoria, a estratégia e a assinatura final.”

Em síntese, a Inteligência Artificial veio para potencializar, e não substituir, a atuação da Perita ou do Perito. Ao automatizar tarefas operacionais, permite que o profissional dedique mais tempo à análise crítica, à interpretação técnica e à construção de conclusões fundamentadas.

Assim, o futuro da Perícia Contábil talvez esteja na união entre tecnologia e expertise humana, combinando eficiência, qualidade e segurança na produção da prova pericial.

Giovanna De Camillis

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